terça-feira, 24 de março de 2015

Festivais

Publicada no Segundo Caderno de O Globo (24/3/2015)

Festival de Curitiba
A House in Asia abre a mostra curitibana

Em 24 edições, sem qualquer descontinuidade, o Festival de Curitiba estabeleceu um padrão para mostras nacionais. Em 1992, grupo de jovens curitibanos, com pouco lastro empresarial e tradição cultural, fizeram surgir na capital paranaense evento que atualmente alcança números que no início não se imaginaria alcançar e repercussão de efeito multiplicador. Forjado em marketing nacional e curadoria que se desenhava como carnê dos espetáculos dos mais destacados encenadores dos anos 90, o festival contabilizou, na sua primeira década, sequência de montagens do Rio e de São Paulo, numa concentração em nomes consagrados e emergentes. De José Celso Martinez Correia a Gerald Thomas, de Moacyr Góes a Gabriel Villela, de Antunes Filho a Bia Lessa e Felipe Hirsch, e dos grupos Galpão ao Teatro da Vertigem, do Tapa a Cia dos Atores, havia um revezamento anual de posições na grade de programação. Com pouca variação no elenco, a novidade  se restringia ao anúncio de estreias como forma de arriscar em meio a previsibilidade e de eventuais surpresas em montagens de fora do eixo RJ-SP. A primeira grande viragem aconteceria em 1998 com a criação do Fringe, mostra paralela, que a exemplo da original do Festival de Edimburgo, na Escócia, ocupa, ainda hoje, a totalidade das salas da cidade, com mais de 300 espetáculos. Apenas com apoio logístico do festival na cessão dos teatros, os participantes do Fringe engordaram a tal ponto que parece ter assustado o público, cada vez mais  arredio e magro. É neste período em que se consolida como mostra, estrutura a programação e se transforma em modelo para vários outros festivais que surgem pelo país, seguindo, com variantes regionais e autonomia curatorial, a formatação curitibana. O gigantismo crescente, com a inclusão de série de stand-ups do Risorama, dos show de mágica e circo do Mish Mash, das apresentações ao ar livre de Na Rua e de teatro infantil do Guritiba, infla ainda mais a bolha de ar que envolve a mostra principal. O Festival de Curitiba é um projeto amadurecido, que atingiu números expressivos e ampla projeção, mas que começa a sentir a necessidade de buscar um ponto de inflexão que reforce suas origens e redirecione a sua programação. Tudo indica, pelos sinais apontados pela diretor do festival, Leandro  Knopholz, que o caminho está em contrabalançar montagens brasileiras com internacionais num diálogo intercultural, que oxigena e revitaliza.